sábado, 6 de março de 2010

Advogado de defesa

Dizem que  aconteceu no Pará, em Abaetetuba.
Na cidade  havia um senhor cujo apelido era Cabeçudo parece que o primeiro nome dele era Anderson. 
Nascera com uma cabeça grande, dessas  cuja boina dá pra botar dentro, fácil, fácil, uma dúzia de Laranjas.
Mas fora  isso, era um cara pacato, bonachão e paciente.
Não gostava, é claro, de ser  chamado de Cabeçudo, mas desde os tempos do grupo escolar, tinha um chato que  não perdoava. Onde quer que o encontrasse, lhe dava um  tapa na cabeça e perguntava:
- 'Tudo  bom, Cabeçudo'?
O  Cabeçudo, já com seus quarenta e poucos anos, e o cara sempre zombando dele.
Um dia,  depois do milésimo tapão na sua cabeça, o Cabeçudo  meteu a faca no zombeteiro e matou-o na  hora.
A  família da vítima era rica; a do Cabeçudo,  pobre.
Não  houve jeito de encontrar um advogado para defendê-lo, pois o crime tinha muitas testemunhas.
Depois de apelarem para advogados de Belém, São Paulo e do Rio, sem sucesso  algum, resolveram procurar um tal de 'Zé Caneado', advogado que há muito tempo deixara a profissão, pois, como o  próprio apelido indicava, vivia de porre.  

Pois  não é que o 'Zé Caneado' aceitou o caso? 
Passou a semana anterior ao julgamento  sem botar uma gota de cachaça na boca!
Na hora  de defender o Cabeçudo, ele começou a sua peroração  assim:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do  júri.
Quando  todo mundo pensou que ele ia continuar a defesa, ele  repetiu:
- Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do  júri.
Repetiu  a frase mais uma vez e foi advertido pelo  juiz:
- Peço  ao advogado que, por favor, inicie a  defesa.
Zé  Caneado, porém, fingiu que não ouviu  e:
-  Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do  júri.
E o  promotor:
- A  defesa está tentando ridicularizar esta  corte!
O  juiz:
-  Advirto ao advogado de defesa que se não apresentar imediatamente os seus  argumentos...
Foi  cortado por Zé Caneado, que repetiu:
-  Meritíssimo juiz, honrado promotor, dignos membros do  júri.
O juiz  não agüentou:
- Seu  moleque safado, seu bêbado irresponsável, está pensando que a justiça é motivo  de zombaria? Ponha-se daqui para fora antes que eu  mande prendê-lo.
Foi  então que o Zé Caneado disse:
-Senhoras e Senhores jurados, esta Côrte chegou ao ponto em que eu queria chegar...
Vejam que: se apenas por repetir algumas vezes que o juiz é meritíssimo, que o promotor é  honrado e que os membros do júri são dignos, todos perdem a paciência, consideram-se ofendidos e me ameaçam de prisão....,  pensem então na situação deste pobre homem, que durante quarenta anos, todos os dias da sua vida, foi chamado de Cabeçudo !
 
Cabeçudo foi absolvido e o Zé voltou a tomar suas cachaças  em Paz.
 Mônica,by mail

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